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23 de abril de 2010

dia do livro

Apesar da ausência era imperdoável não assinalar este dia.

«Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.»
A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Záfon

31 de março de 2010

what about love


«Essa alucinação que uma vez sentira, eu sabia, era viciante como morfina. O amor é uma morfina. Podia ser comerciado em embalagens sob o nome: Amorfina.»
Jesusalém, Mia Couto

a world of pure imagination


«Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro. (…) E escrevo como as aves redigem o seu voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim

Jesusalém, Mia Couto

prosa moçambicana

«Ali não havia nenhuma saudade de nada. Em Jesusalém, a Vida não tinha que pedir desculpa a ninguém. (…) Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.

«
O Tempo é um veneno, Mwanito. Mais eu lembro, menos fico vivo
Jesusalém, Mia Couto

15 de março de 2010

Nascido num dia azul


«Diz-se que toda a gente tem um momento perfeito, de vez em quando, uma experiência de ligação e paz completa, como olhar do alto da Torre Eiffel ou ver uma estrela cadente no céu da noite. (...) O que os torna especiais é serem raros. (...) Imagino estes momentos como fragmentos ou estilhaços espalhados por uma vida. Se alguém pudesse apanhá-los e juntá-los, teria uma hora perfeita, ou mesmo um dia perfeito. E penso que nessa hora ou nesse dia estaria mais próximo do mistério do que é ser-se humano. Seria como um vislumbre do céu.»

E assim acaba um dos melhores livros que li nos últimos tempo. Li estas últimas palavras fascinada com quem as escreveu: Daniel Tammet. Nem sei por onde começar. Ora, sofre de Síndrome de Asperger (um tipo de autismo, para simplificar as coisas), mas dada a sua experiência de vida (a convivência com imensos irmãos, o voluntariado que fez, entre outros factores) conseguiu ultrapassar um dos maiores problemas dos autistas: a interacção social. Isto permitiu-lhe integrar-se cada vez mais na nossa sociedade, com um esforço acrescido, obviamente. E ao conseguir interagir e estabelecer comunicação com os outros permitiu também que os cientistas estudassem (e estudem) o fenómeno misterioso que é a sua mente. Se lhe derem um pedaço de plasticina e lhe disserem um número, ele reproduz na plasticina a imagem que se forma na sua mente ao pensar neste número. Cada número para ele tem uma forma, uma cor, uma textura (os entendidos na matéria chamam-lhe sinestesia, o que por acaso até faz sentido como figura de estilo). Estabeleceu um novo recorde europeu quando recitou 22 514 algarismos do pi em 5 horas. Diz que, na sua mente, o pi representa uma paisagem pois cada número contribui com um elemento para essa paisagem. Foi-lhe pedido por cientistas que estudasse num ecrã de computador dígitos do pi, mas tinham substituído secretamente os seis por noves em pontos ao acaso. Daniel diz-nos que conforme olhava para o ecrã começava a sentir-se desconfortável e a fazer caretas, pois via partes da sua «paisagem numérica a partirem-se, como se tivessem sido vandalizadas». Para ele, «pi é uma coisa extremamente bela e absolutamente única. Como a Mona Lisa ou uma sinfonia de Mozart, pi contém a sua própria razão para ser amado.»

É capaz de fazer cálculos mentais de cabeça em 10 segundos que eu não faria nem numa hora (e não era de cabeça). Se souber uma data de nascimento sabe precisar imediatamente a que dia da semana corresponde. Como em qualquer situação que envolva génios, foi jogar blackjack, e imaginem só que ele ganhou! (ler com tom irónico) Tem uma facilidade fascinante em aprender várias línguas e até fez disso profissão: criou um site, o Optimenm, onde disponibiliza cursos e formas de aprendizagem de línguas.

No seu livro dá-nos o exemplo de outras pessoas como ele. G. K. Chesterton «era capaz de citar de memória capítulos inteiros de Dickens e de outros autores e recordava os enredos dos 10 000 romances que avaliara como editor. As suas secretárias relatavam que ele podia ditar um artigo ao mesmo tempo que escrevia outro à mão, sobre um assunto completamente diferente. Contudo, estava sempre a perder-se, tão absorvido nos seus pensamentos que, por vezes, tinha de telefonar à mulher para o ajudar a regressar a casa.» Kim Peek, que «era capaz de ler aos dezasseis meses e completou o currículo do secundário aos catorze anos. Kim memorizou, ao longo dos anos, uma vasta quantidade de informação acerca de mais de uma dúzia de assuntos, que vão desde História e datas até à Literatura, Desporto, Geografia e Música. Consegue ler simultaneamente as duas páginas de um livro, cada uma com seu olho, com uma retenção quase perfeita [olha o jeito que isto me dava!]. Kim já leu mais de 9 000 livros inteiros e consegue recordar todo o seu conteúdo.» Lê em 10 segundos algo que lemos em 3 minutos.

O Homem é um autêntico leigo em certas matérias da mente humana. Mas é sempre fenomenal quando surge um caso destes, possível de ser estudado e que contribui grandemente para a descoberta de novas teorias. E estas coisas fascinam-me. Era só isso.

Aconselho vivamente que vejam este vídeo. Ou este. E este, este, este, este e este. E já agora o site dele. E que, obviamente, leiam o livro. Só isso.

25 de fevereiro de 2010

To Be Read


É só para mostrar o tamanho da minha pilha de TBR. E para cada vez que vier ao blog me lembrar que não posso aceitar mais livros enquanto a altura não diminuir. Já para não falar que na mesa-de-cabeceira estão mais uns cinco.

(As fotografias estão escolhidas. Que nostalgia ao revê-las. Que saudades de Praga!)

31 de janeiro de 2010

é um quase-vício



Mergulho nos livros e assim me deixo ficar durante horas, perdendo-me entre histórias de guerra e de amor, para crianças e para graúdos. As letras alimentam-me a alma, fazem-me viver histórias que não a minha, conhecer lugares que provavelmente nunca chegarei a pisar. E é por isso (e por tanto mais) que eu não percebo como é que há tanta aversão (carregada de orgulho) à leitura.

16 de janeiro de 2010

time goes by

«É sempre rápido o tempo da felicidade. O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele se prolongue, seja demorado e lento, ele foge às pressas, nem se sente o correr das horas. Quando queremos que ele voe mais depressa que o pensamento, porque sofremos, porque vivemos um tempo mau, ele escoa moroso, longo é o desfilar das horas.»

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, Jorge Amado

moda?

«Antigamente, porque hoje o Vento não obtém o menor sucesso com tão gasta demonstração: exibir o quê, se tudo anda à mostra e quanto mais se mostra menor se quer ver?»

Ao ler isto no livro O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (de Jorge Amado) pensei imediatamente no facto de que hoje em dia a cor/padrão das cuecas/boxers de uns e de outros já não é segredo para ninguém. E há segredos que preferia nem saber.

12 de janeiro de 2010

so right

«De facto, só abro a gaveta quando vou à procura de uma imagem específica que possa ter uma utilidade concreta e actual, evitando cuidadosamente qualquer tipo de vistoria que possa despertar essa serpente venenosa que hiberna no fundo da gaveta e a que chamamos nostalgia. Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi

No Teu Deserto
, Miguel Sousa Tavares

27 de abril de 2009

O Jogo do Anjo
























Sempre com um enredo viciante que nos faz querer ler capítulos atrás de capítulos, que desperta em nós aquela vontade de ver desvendados todos os mistérios, todas as identidades camufladas, todos os pormenores determinantes, O Jogo do Anjo, apesar de soberbo, não está ao nível d' A Sombra do Vento.

É um regresso à cidade dos malditos, Barcelona, e ao Cemitério dos Livros Esquecidos, onde cada livro guarda uma alma: a de quem o escreveu.

31 de agosto de 2008

Codex 632

Voltou para a estante, com todas as quinhentas e cinquenta páginas e milhões de palavras lidas por mim.

Eu a História nunca nos demos muito bem. Era uma relação estritamente profissional. Nunca foi do meu agrado. Mas a História, infiltrada num Romance como o Codex 632, até me pareceu aprazível - e olhem que não é fácil.

O facto de todo o enredo girar em torno de Cristóvão Colombo e da época dos Descobrimentos também foi algo a favor do meu deslumbramento pelo livro. Porquê? Ora, porque no meio de tanta história, os Descobrimentos são aquele capítulo que gosto mais (ou desgosto menos, depende da perspectiva). Mas, como já disse, a História e eu não partilhamos gostos, portanto não foi propriamente isso que me atraiu neste livro, mas sim a familiaridade que senti enquanto o lia.

Passo a explicar. O Codex foi escrito pelo nosso jornalista, José Rodrigues dos Santos. Ora, muitas das passagens deste livro desenrolam-se em locais que me são familiares, o que já de si me encanta. Acrescentando a este facto as descrições eloquentes e extremamente detalhadas que o autor nos apresenta, fico com uma enorme vontade de gritar Eu estive ali e aquilo é mesmo assim! Entre passagens pela praia de Carcavelos, pelo Chiado e pela Brasileira, pelo Passeio das Tágides no Parque das Nações, pelo Castelo de S. Jorge, pela Torre de Belém ou pelo Mosteiro dos Jerónimos, aquela que me fez esboçar um enorme sorriso foi a Quinta da Regaleira, que ainda há dias visitei. E, a verdade, é que fiquei a saber bastante mais acerca daquele lugar misterioso do que quando lá pus os pés. Cada pormenor minuciosamente explicado levando-me a acreditar que nada foi feito ao acaso. O próprio autor afirma «É isso, afinal de contas, a Quinta da Regaleira. Um livro esculpido na pedra.» E a verdade é que é também o lugar mais esotérico de Portugal. Sintra é Sintra, mas a Quinta da Regaleira é sem dúvida o melhor.

Mas bem, continuando. Contrastando com o sentimento de familiaridade com que este livro me prendou, experimentei também o querer ir e descobrir o desconhecido. Viajei até Nova Iorque, até ao Brasil, Itália, Jerusalém. Tenho uma vontade enorme de pôr a mala às costas e o livro debaixo do braço e tornar real cada imagem formada na minha imaginação com as fantásticas descrições.

Por fim, mas não menos importante, o facto de existir realmente uma vida, uma família, um casamento e uma filha, Margarida, no meio de tudo isto, dá um ar menos teatral e histórico a todo o enredo. Um outro pormenor que captou a minha atenção foi a doença de Margarida: trissomia 21; isto e todo o frenesim gerado numa família que esperava uma criança dita normal; isto e todas as etapas entre operações e tratamentos, entre explicações e esperanças que acabaram num sono profundo e eterno. «Sonhos cor-de-rosa, minha querida.»

E, no fim do último capítulo, na derradeira página, lendo os parágrafos finais, gera-se todo um novo entender sobre o livro, toda uma nova perspectiva...

Oh se gostei! E muito!

(in, Minhocas na Maçã)

21 de agosto de 2008

e mais livros!

«Tomás inclinou-se no sofá, pegou numa das revistas amontoadas sobre a mesinha e folheou-a distraidamente. Enormes fotografias de pessoas bem vestidas enchiam as suas páginas com sorrisos iguais, quase estereotipados, anunciando ao mundo a felicidade cor-de-rosa dos seus casamentos ou a animação frívola das festas lisboetas; eram revistas de sociedade, de gente bem em poses cuidadas, encenadas, exibindo homens de aspecto próspero e vistosas camisas de marca, desabotoadas junto aos colarinhos, posando ao lado de loiras oxigenadas, a pele estragada pelo Sol e as faces pesadamente maquilhadas; tornava-se evidente que aquelas personagens tinham declarado guerra ao passar dos anos, num esforço vão, grotesco até, para reterem a beleza que a idade inexoravelmente lhes roubava em cada instante, a juventude que se perdia a cada respiração, ao ritmo em que a areia desliza numa ampulheta e é largada pelo sopro do tempo.»

Codex 632, José Rodrigues dos Santos

A imortalidade e a eterna juventude, o maior desejo daquelas personagens. Julgam-se senhores e senhoras capazes de contrariar as leis da vida. Não me apoquentam os pequenos cuidados mas sim os extremos. Muitos/as não sabem quando parar caindo no ridículo. Olha para o lado, é cada vez mais usual...
(in, Minhocas na Maçã)

20 de julho de 2008

the end.

«Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas (Ensaio sobre a Cegueira). É um dos momentos mais belos que fiz até hoje enquanto escritor. Se no futuro puder ser recordado como "aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher", ficarei contente. Se alguém procurar naquilo que eu tenho escrito uma certa mensagem, atrevo-me pela primeira vez a dizer que essa mensagem está aí. A compaixão dessa mulher que tenta salvar o grupo em que está o seu marido é equivalente à compaixão daquele cão que se aproxima de um ser humano em desespero e que, não podendo fazer mais nada, lhe bebe as lágrimas.»

«Deus uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele.»

Incredulamente, adorei o final. Superou todas as minhas expectativas. Logo eu que raramente gosto da forma como os livros acabam. Foi direitinho para o 2º lugar da minha lista de livros favoritos.

Ainda estou a digerir cada página... Ainda estou a tentar encontrar palavras para o adjectivar. Provavelmente não as há. «O silêncio ainda é o melhor aplauso.»
(in, Minhocas na Maçã)

12 de julho de 2008

Vendredi.

«Nessa noite o cego sonhou que estava cego.»

Café, pastel de nata e Ensaio sobre a Cegueira... what else?
(in, Minhocas na Maçã)

20 de junho de 2008

tic-tac

«O tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda gente.» (Saramago)

Não tenho dúvida alguma. Para mim, ultimamente, tem sido uma eternidade.
(in, Minhocas na Maçã)

5 de junho de 2008

Fim.

«Daí a pouco, figuras de vapor, pai e filho confundem-se entre a multidão das Ramblas, os seus passos para sempre perdidos na sombra do vento

Queria acabá-lo. E não queria acabá-lo. Sinto um fascínio pelo livro e pela forma como chegou ao fim. Porém, quero mais, quero mais um capítulo, mais um bocadinho de todas as palavras conjugadas numa interacção perfeita.
(in, Minhocas na Maçã)

4 de junho de 2008

A Sombra do Vento

G-e-n-i-a-l!

Este livro foi escrito a pensar em mim, só pode.

Estão a ver aquela vontade incontrolável de comer tudo o que nos aparece à frente e que, por mais que tentemos, não conseguimos combater? Pois bem, assim estou eu com o livrinho (aliás, livrão!) do Zafón. Com a história de 'só mais uma página' foram 76! Pois bem, acho que no teste de Filosofia sobre religião, hierofanias, Kierkegaard, Jean Paul-Sartre, Albert Camus, blá blá blá, a única coisa de que me vou lembrar é que Julián Carax é...

Zuza, cala-te. Pronto, está bem. Não estrago, não conto. Falta pouco, muito pouco para o The End.

Este livro deve constar da vossa lista dos livros que têm obrigatoriamente de ler antes de morrer. E se não têm uma lista destas? (perguntam vossas excelências) Passam a ter e escrevem na primeira linha: A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón.
(in, Minhocas na Maçã)

27 de fevereiro de 2008

nostalgias.

«- Um dia vi o pôr-do-Sol quarenta e três vezes!
E, pouco depois, continuaste:
- Sabes... quando se está muito, muito triste, gosta-se do pôr-do-Sol...
- No dia das quarenta e três vezes estavas assim tão triste?
O principezinho não respondeu.»

Saint-Exupéry
(in, Minhocas na Maçã)

28 de outubro de 2007

Retalhos #2

« - Quantos anos tem? - perguntou o médico.
Aquilo estava a ficar ridículo. Tinha de ajudá-lo. Mesmo que não acreditasse, talvez me achasse pelo menos divertido.
- Acho que devo ter uns trezentos de oitenta e sete anos.
- E conhece mais alguém que tenha chegado a essa idade?
- Só o meu galgo, o Pedro.
- O seu cão?
- Exactamente.
O médico, espantosamente, não parecia surpreso com as minhas afirmações, e eu fiquei impressionado com a calma dele.
- E tem ideia do motivo? - perguntou gentilmente.
- Não sei. Tudo o que sei é que parece que estamos a viajar pelo mundo em busca de amor e chocolate, e que talvez nunca cheguemos a envelhecer ou a ter paz.
- O seu pulso, com certeza, é lento...
- Como a minha vida. Não posso viver como os outros.
- Acha que está condenado a viver eternamente?
- Acho que deve ser isso.
O médico parou um instante, olhando para longe. Virei-me para ver se ele ainda estava a ouvir-me e, finalmente, vi os olhos dele.
A sua concentração e intensidade eram tremendas.
- Só se pode estar preparado para a vida preparando-se para a morte. Se a ameaça de morte é eliminada, então a vida deixa de ter sentido.
- Talvez seja assim para si, mas para mim é doloroso. Já não sei qual é o objectivo da minha busca.
- Sente que está em busca de alguma coisa?
- Foi assim que começou a minha aventura.
- Conte-me a sua história. A busca é importante.
- Pode levar dias, semanas, até anos.
- Por favor - disse o médico - acho que posso ajudá-lo...
- De que maneira?
- Também sou uma espécie de conquistador - continuou solenemente. - Mas as minhas viagens talvez tenham sido para regiões mais longínquas...
- Onde esteve?
- Em toda parte e em lugar nenhum. A minha aventura é a busca dos tesouros da mente.
- Já não aconselho as aventuras - respondi, pensando em todos os transtornos que me causaram.
- Pelo contrário. Acho que devemos enfrentar os nossos medos. Não existe terra mais estranha do que a mente humana.
- E nenhuma tão aterradora.

(...)

- Diga-me - perguntou um dia, - sobre o que sonha?
- Às vezes, não sei se estou a sonhar ou a viver a minha vida - respondi. - Sinto-me como se fosse um homem que teve um sonho no qual sonhava que estava a sonhar.
- Continue.
- Não posso garantir que tudo seja real. Às vezes, sinto que já estive em certos lugares, mas não sei como, quando ou porquê. Fico com a impressão de já ter vivido esta parte da minha vida, mas nada posso fazer para impedir que aconteça novamente.
- Muitas vezes estamos condenados a repetir...
- O que posso fazer? Acredita em mim?
- Acredito que não faz diferença se a sua vida é uma fantasia ou realidade. Ela é real para si.

(...)

- Alguma vez sentiu ter tendências divinas? Que pudesse ser um tipo de super-homem ou uma espécie de Cristo?
- Não, não - respondi. - Está tudo errado. Não é nada disso. Além do mais cheguei à conclusão de que Deus não existe. Como pode existir quando há tento sofrimento sem propósito?
- Concordo - exclamou o médico com entusiasmo, e a nossa conversa foi ficando mais animada. - Deus foi inventado pela civilização como consolo para a esmagadora força da natureza.
- Não podemos tolerar a ideia a nossa extinção - disse eu rapidamente, voltando ao meu assunto. - Então, criamos outro mundo, outro palco para a nossa jornada. Não vemos o universo como ele é, mas como queríamos que ele fosse.
- É a nossa fuga ao caos da história.
- Esperamos por uma vida melhor, para além desta - disse eu.
- Que não existe - disse o médico, com firmeza.
- Não, não acredito que exista, assim como também não creio que exista um criador benevolente agindo sobre o Universo - concordei.
Finalmente, ali estava um homem que me compreendia, e a nossa conversa continuou num ritmo acelerado, como se ali nos fosse permitido expressar o que não podia ser dito sem chocar a refinada sociedade de Viena.
- Deus foi criado para afastar o tormento da morte. Mas se se afasta Deus....
- Ter-se-á que aceitar a morte em troca - disse eu.
- Exactamente - respondeu o médico. - Agora estamos a chegar a algum lado. Pois isso é o que você não consegue fazer. É esse o seu problema, a sua neurose. Você nega-se a aceitar a morte.
- No entanto, acredito realmente que não consigo morrer e que tenho que suportar uma vida miserável, condenado, como o judeu errante, a vaguear pela mundo para sempre.
- Você é um homem fora do comum - comentou o médico.
- Não - afirmei - não sou. Sinto que sou uma pessoa tremendamente comum que por acaso tem um atributo especial. Não me sinto superior às outras pessoas, mas apenas distante delas.
- Por não poder morrer?
- Exactamente. Poderia viver egoistamente, voltado inteiramente para o meu prazer.
- E o que o impede de fazer isso?
- Acho que não se pode levar uma vida exclusivamente hedonística. O prazer passa, morre, mesmo que eu não morra - respondi.
- Mas para outros seres humanos, o prazer parece ser uma corrida impetuosa para a morte.
- Sim - respondi. - É quase como se houvesse pessoas com um instinto para a morte. Porque, sem a vontade de morrer, não há vontade de viver.
- E sem morte não haveria filosofia.
- Então, o que é a felicidade? - perguntei francamente.
- Não sei - disse o médico, à medida que o ritmo da nossa conversa finalmente diminuía.
- Achei que você, que viveu tanto tempo, me pudesse dizer.
- Talvez a arte de viver seja exactamente a compreensão de que um dia vamos morrer.
O médico balançou a cabeça solenemente.
- E isso é parte da nossa felicidade? - perguntou.
- Deve ser - respondi. - Não podemos ser felizes sem a compreensão ou a antecipação da morte.
- Também tenho pensado nessas coisas - disse o médico. - A nossa única satisfação nesta vida não passa de um prazer passageiro. Parecemos amar o efémero. A morte é a única coisa permanente.
Ele levantou-se e caminhou até à janela.
- E já que não temos esperança de um sucesso duradouro - concluiu - precisamos de aprender a viver com o desespero. Mas, diga-me, onde é que encontra consolo?
- Viajo. Aperfeiçoei a arte de fabricar chocolate. Tiro consolo de onde posso.
- Não há nada de errado com o chocolate. Dá muito prazer.
- Faz-me lembrar o meu amor que perdi e que não consigo reencontrar.

(...)

- Todos os sonhos são assim tão claros para si? - perguntei.
- Não, nem todos. E, no seu caso, muitas vezes eles são confusos por causa da longa duração da sua vida e da complexidade das suas lembranças. Mas, diga-me, também deve sentir-se entediado pelo quotidiano já que a sua vida passa tão lentamente, não é?
- Devo confessar que é impossível exprimir o meu tédio. Não é fácil sentir-se vivo quando a vida não tem pressa.
- Então você precisa de trabalhar. Talvez escrever sobre as suas experiências para preservar as suas lembranças e encontrar sentido nelas. Porque a sua tarefa é, certamente, compreender alguma coisa dos enigmas do mundo e tentar contribuir para a sua solução.
Ele tocou a campainha para mandar buscar o meu casaco, porque a lógica da nossa conversa parecia não ter futuro.
- Embora me compadeça de si - o médico consolou-me - só posso sugerir que continue a procurar o sentido da vida.
- Isso não leva a lugar nenhum.
- Não pode viver retroactivamente. Tem que andar para a frente, ocupando o seu lugar no desenvolvimento da nossa espécie, e então, talvez a morte sobrevenha. Precisa de viver tudo o que puder. Viver, comer, amar, sofrer e esperar pela morte.
- Mas eu não posso fazer essas coisas como os outros homens - disse eu, vestindo o casaco.
- Pode.
- Não, não posso. Porque parece que não posso amar e não posso morrer - disse eu, quase a chorar.
O médico confortou-me, colocando um braço em volta dos meus ombros.- Tem a certeza disso? Não se sente mais velho do que era?
- É tão difícil sabe verdadeiramente o que sinto.
Os meus olhos encheram-se de lágrimas.
- Talvez esteja simplesmente destinado a viver a sua vida a um ritmo diferente. O seu sofrimento não é tanto pela eternidade, mas pela lentidão. Você vive sob uma sombra maior do que os outros, mas o fim virá com certeza. Tem que vir.
- Mas o que farei até lá?
- Precisa de trabalhar e amar. Trabalho e amor. São os únicos guias que temos. Sem eles, a mente adoece. »

O Segredo do Chocolate, James Runcie

(in, Minhocas na Maçã)