10 de abril de 2010

e gosto de escrever isto sabendo que ninguém vai perceber


Gosto de caminhar na rua e pensar que me posso cruzar contigo a qualquer momento. Olho para os rostos daqueles que cruzam o meu caminho à espera de reconhecer feições que me são familiares. Gosto de pensar que estás ao virar da esquina e que quando me vires vais reconhecer feições que te são familiares. E como sei que o mundo é uma ervilha a esperança nunca me abandona. Invado o olhar dos transeuntes num frenesim desconcertante, dado o passo acelerado com que passam por mim, cada um com a sua pressa em chegar onde são esperados. E eu caminho lentamente, sem pressa de chegar onde quer que seja, esperando apenas que chegues até mim.

Gosto da metamorfose do tu numa pluralidade de tus. De pensar que a espera se faz não por um mas por vários. De esperar reconhecer feições numa moldura de cabelos claros e escuros, numa tez morena e clara, de olhos expressivos e apagados, de sorrisos constantes e inexistentes. Porque a pluralidade de tus aumenta a probabilidade de me cruzar contigo a qualquer momento numa troca de sorrisos genuínos.

Gosto de acordar embrulhada neste rol de incertezas e de me espreguiçar com a força de uma certeza. De saber que entre uma pluralidade de tus, hoje é o teu dia, é o dia de me cruzar contigo. Gosto de pisar o teu território e saber que vais lá estar. Gosto ainda mais de pisar territórios diferentes todos os dias embalada por certezas singulares mas diversas. Mas o significado pleno e genuíno de gostar reside na fusão de certezas e incertezas - uma utopia mais-que-pessoal.

Gosto de me cruzar contigo nas ruas da minha cidade e saber que é fruto do acaso.

2 comentários:

Rocío disse...

É tão bom sair à rua sem rumo, mas feliz, pela possibilidade de nos podermos cruzar com alguém especial, nem que seja só por uns segundos! Gostei bastante do texto, lindo mesmo :)

Rogério Pereira disse...

...ninguém vai perceber?
Eu! Eu, percebi!
Bom, pensando melhor...
Confesso!
Tem razão...
Não percebi!
Vou reler
Mas julgo que não vai adiantar muito
(Há coisas que se gosta de fazer e que não necessitam de ser entendidas)