18 de setembro de 2007

CIÚME



Sentimento doentio que nos consome até ao último grito. Bracejamos, gritamos palavras mudas, derrubamos tudo e todos. Chegamos até a pensar que é traição quando nem sequer nos pertence. Acreditamos tão profundamente ao ponto de se tornar real nos sonhos. Acordamos, confusos, a realidade mistura-se com a fantasia. O ciúme permanece, cada vez mais e mais forte. E nós lutamos contra ele, impomos um muro que separa o consciente do subconsciente. Mas não é suficiente, ele não morre. Fica sempre o bichinho, pronto a irromper pelos sonhos ao mínimo empurrão. Surge a inveja. A repugnância pelo ciúme. Não é saudável, mata-nos aos poucos, enfraquece-nos e torna-nos rancorosos. Tudo isto para quê? Afinal, nem nos pertence. Ora aí está o ponto fraco: não nos pertence. Talvez pudesse pertencer, talvez não. Julgamos ter tentado tudo, mas nunca assim o é. Chega a hora de desistir, guardar lugar no degrau em que estamos para que ninguém o possa roubar. Dar mais um passo é sinónimo de deitar tudo a perder. Ficamos-nos. Ficamo-nos no nosso degrau, e chegamos à conclusão que mais vale não saber demais, não querer saber tanto. O desconhecido é o nosso melhor amigo. Ao menos não desperta o ciume. Mas no fundo, no fundo, existe algo que se sobrepõe a tudo isto. Algo que nos faz acalmar o ciume. Afinal, tudo o que desejamos é ver um sorriso, um sinal de felicidade, uma gargalhada, aqui ou ali, com este ou com aquele, whatever. Uma sentença de morte ao ciume. Um olá à nossa própria felicidade.
(in, Minhocas na Maçã)

10 de setembro de 2007

Existem momentos em que nos mentalizamos...



... que o tempo não estica nem volta atrás, os bons momentos não se voltam a repetir e que tudo tem um fim. Desejamos ter feito mais, desejamos não ter feito tanto, desejamos ter conduzido as coisas de uma outra forma. Queremos voltar a repetir tudo, tecer as conversas e as ocasiões ao nosso critério. Imploramos por uma oportunidade para fazermos aquilo que não fomos capazes de fazer antes. Mas ela não surge. Talvez nunca volte a surgir, mas nunca deixamos que a esperança morra. Sonhamos com o momento em que nos será proporcionada a tão desejada oportunidade. Por outro lado tomamos consciência que o limite está cada vez mais perto e não podemos parar no tempo. Pedimos liberdade, desenterramos forças, acalmamos a vontade. A ansiedade aumenta, mas não somos capazes. Chegou ao fim, a hora de dizer adeus. Não dizemos. No fundo pensamos que nunca será preciso dizê-lo. Sonhamos com a eternidade. Mas a verdade é que o fogo vai-se apagando, a vela começa a escassear e não fomos capazes de dizer adeus. Ficam as recordações, os sonhos, e o arrependimento. Afinal podíamos ter feito mais. Mas uma coisa que fica sempre é a alegria de termos feito tanto, não foi o suficiente, mas foi mais do que julgavámos ser capazes de fazer.
(in, Minhocas na Maçã)