18 de outubro de 2008

e agora vou voltar para a síntese proteica.

Tenho uma professora que acha que tudo é fantástico. Tenho uma professora que mesmo quando está chateada nos ralha com calma e sem levantar a voz. Tenho uma professora que fica muito corada quando está a explicar a matéria. Tenho uma professora que anda sempre a cirandar de um lado para outro enquanto fala. Tenho uma professora com uns sapatos bastante engraçados. Tenho uma professora quase-tia que gosta muito do are you following me? Tenho um professor que diz que qualquer dia se desmonta todo e que nós teremos de o apanhar com uma pá e com uma vassoura. Tenho um professor que tem uma bengala de seu nome prontos.

Num mundo perfeito seria eternamente estudante.
(in, Minhocas na Maçã)

16 de outubro de 2008

-te

Uns que finalmente abrem a boca, outros que se calam. O silêncio não é eterno. Uns que chegam, outros que partem. A estrada é de dois sentidos e sem traço contínuo. Uns que batem palmas, outros que vaiam. Ninguém é perfeito. Uns que previnem, outros que remedeiam. Errar é humano. Uns que te abraçam, outros que te afastam. Uns que te amam, outros que te odeiam. O que seria de ti se todos gostassem de mim.

Uns que partem por tempo indeterminado, outros que partem temporariamente. Uns que chegam para ficar, outros que chegam para partir. Uns que não chegam a chegar e muito menos a partir. Outros que partem sem chegar, ou que partem mesmo sem ir.

Mas o essencial fica. Chega e não parte; resiste e tem paciência. Fala mas não grita. Bate palmas e critica. Previne mas remedeia. Abraça e não larga. Ama. Amo.
(in, Minhocas na Maçã)

4 de outubro de 2008

'Come as you are, as you were, as I want you to be.'

Lá estavas tu, impávido e sereno, a olhar para o vazio como se nada mais existisse. Como se a chuva que te escorria pela face não passasse de escassas gotas que o céu chorava. Como se o vento cortante que te envolvia não passasse de um insignificante sopro meu. Como se o céu escuro que pairava sobre nós não passasse de um simples cenário. Como se tudo isto – tu sentado na borda do passeio a desvendar os segredos daqueles que passavam por ti escondiam e eu, de pé, do outro lado da estrada, a contemplar esse teu olhar perdido algures atrás de mim – não passasse de um mero teatro.

Lá estavas tu, sentado no chão salpicado pela chuva, de pernas cruzadas e de cabeça erguida. Parecias ter parado no tempo. Nem sequer te preocupavas em limpar a água que te inundava o rosto de tão envolto que estavas nos teus pensamentos. Olhavas para o desconhecido, parecias perdido numa realidade paralela. Dei um passo na tua direcção e só os teus olhos se moveram. Estavas agora a olhar fixamente para mim com um ar incrédulo. Assenti com a cabeça e isso serviu-te como resposta.

Ergueste-te e tentaste enxugar o rosto com a manga da tua camisola. Depressa percebeste que nada em ti estava seco. Aproximei-me e acolhi-te no meu guarda-chuva, junto a mim. Abracei-me a ti e tu retribuíste.

A chuva caía em cada canto daquela rua, mas naquele pequeno circulo formado pelo nosso guarda-chuva não. O vento soprava em cada espaço vazio daquela rua, mas nem tu, nem eu estávamos agora vazios. O céu negro pairava sobre todos os seres que caminhavam apressadamente naquela calçada, mas sobre nós não. Não tínhamos pressa de abandonar aquele momento mas sim vontade de o imortalizar.

- Demorou.
- sussurrei eu ao teu ouvido.

Soltaste uma gargalhada e abraçaste-me ainda com mais força. Sabia que ali estava segura; segura de que a felicidade estava mesmo ao nosso lado, também ela escondida da chuva, do vento e do céu negro.
(in, Minhocas na Maçã)